Home / Destaque / Política, dança e acessibilidade com Edu O.

Política, dança e acessibilidade com Edu O.

O coreógrafo e professor da Escola de Dança da UFBA, Edu O. vai apresentar aos participantes do curso de Formação e Qualificação de Agentes Culturais realizado no Espaço Xisto Bahia, nesse fim de semana, a performance O Bicho.

A apresentação é um desdobramento do espetáculo O Corpo Perturbador que Edu criou em 2010. “Nessa performance eu levanto questões referentes ao exercício de poder em relação à pessoa com deficiência, mas a partir da sexualidade. Abordo o fetiche das pessoas que sentem prazer e atração sexual pela deficiência. A partir de uma pesquisa longa que fiz, observei exercícios de poder que se aproximam bastante do que a gente vive socialmente, das questões políticas, sociais e religiosas”.

Na atividade, o artista faz experimentações com uma perna de bicho, feita com pêlo de cabra. “A partir do que essa perna traz como corporalidade e possibilidades de movimento, eu vou improvisando. É uma performance de improvisação em que a gente vai estar no palco, mas poderia estar em qualquer espaço. Ela causa um estranhamento, uma inquietação em quem assiste”, destaca.

Além da performance, Edu vai apresentar um panorama do seu trabalho e sua pesquisa de mestrado, que relaciona as políticas públicas culturais brasileiras com a produção dos artistas com deficiência. “A ideia é abrir uma conversa permeada por dinâmicas com o público. Como é muita gente, vou chamar algumas pessoas para fazer algumas experimentações em dança, colocando as leis de acessibilidade com alguns exercícios que a gente sempre faz”.

Apesar de se considerar artista desde criança, Edu só entrou para a dança em 1998 quando ainda haviam poucas referências de pessoas com deficiência no meio. “Sou de Santo Amaro, no interior, e lá não tinha teatro. Eu não ia a espetáculos de dança, tinha pouco acesso na cidade e com deficiência então, nem existia. Sempre quis fazer parte, me via como artista, mas como só tinha referências na televisão, achava que queria ser ator, mas também não tinha deficientes. Essa questão da representatividade é muito importante. A partir da década de 1990 que começaram a aparecer os artistas com deficiência, foi quando eu entrei na dança pelo grupo de dança inclusiva Sobre Rodas.

Logo depois, Edu entrou no Grupo X em que se manteve até hoje onde é diretor e coordenador. “A gente nunca quis pensar no Grupo X como um lugar para pessoas com deficiência. Isso reflete muito o lastro preconceituoso de que deficiente só faz dança com deficiente e para deficientes. Nós somos um  grupo de dança contemporânea que investe na pesquisa de improvisação em cena nos espaços não convencionais. Fazemos performances, intervenções urbanas, então, tem outro foco. Não é necessariamente um grupo de pessoas com deficiência, é também, não excluímos nada”, explica.

Para ele, o trabalho de um agente cultural envolve transitar pelos mais variados espaços e compreender as transformações do nosso tempo. “A partir do período Lula, com os editais, a implementação do Sistema Nacional de Cultura, o Plano Nacional, os planos Setoriais, todo esse entendimento de cultura mais ampliado e essa tentativa de distribuição democrática de renda para a cultura, acho que a gente começou a entender que a arte não é só produzida de uma maneira e que a cultura não é só uma coisa, mas um entendimento amplo do ser e do viver de um povo”.

“Acho que isso é importante e abarca também outras linguagens, outras maneiras de produção. Nós vemos a arte que é feita pela periferia, pelo interior, a possibilidade de emergir em coisas diferentes. A gente estava acostumado ao teatro clássico, a dança tradicional, aquela coisa que era produzida por poucas pessoas privilegiadas. Teve uma abertura maior no processo que é super positiva e que incomoda bastante essa elite da arte”.

Edu O. é autor dos livros Judite quer chorar, mas não consegue! e Despertando Judites: experiências de criar e aprender danças com crianças. Veja mais no site e no blog.

 

*Por Laís Matos – Estagiária (edição e supervisão de Scheilla Gumes)

Veja também

MC Osmar: arte-educador e ativista

Um dos pioneiros da cultura Hip Hop na região de Alagoinhas, o rapper e arte-educador …